“Eu quero crescer. Juro, quero mesmo. Quero aprender línguas que não sei. Quero conhecer novas culturas, povos, lugares. Quero me desapegar do velho. Quero não me fechar para as mudanças e para o novo. Quero não acumular rancores nem alimentar mágoas. Quero aprender a me pedir desculpa. Quero abandonar algumas saudades. Quero aprender a conviver com o que não posso modificar. Quero me mover mais e mais e mudar o que está ao meu alcance. Quero pouco e quero muito. Quero nada e quero tudo. Quero esquecer o que precisa ser esquecido. Quero nunca deixar de sorrir. Quero aprender a descascar laranja. Quero perder o medo de trovão. Quero ir. E vir. Mas nunca, nunca mesmo, deixar de sentir.
“Hey você.
Vai viver vai ..

prisioneiro-da-morte:
“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã..”
Queridos pais, amigos, médicos legistas, ou seja lá quem encontrou essa carta. Me sinto idiota por escrever algo do tipo, pois sinto que todos os meus textos já escritos foram como pequenas cartas de despedidas, minúsculos pedidos de socorro, nunca atendidos. Me sinto estranha também, pois já morri há muito tempo atrás. E não, não sou um fantasma. Sou apenas uma alma perdida, sem rumo, sem direção, sem propósito nesse mundo hipócrita e cruel. Não sei por onde começar, então talvez deva começar do começo, certo? Óbvio. (…) Sempre fui uma garota frágil, carente, triste, solitária. Pode não parecer, mas por trás de toda essa maquiagem forte, dessas roupas pretas e desse sorriso intacto no rosto, batia um coração repleto de cicatrizes, que só pioravam, ou melhor, infeccionavam com o tempo. Sempre precisei de um pouco de atenção, mas nunca tive o suficiente. Sempre quis alguém que precisasse de mim, que me amasse na mesma intensidade que eu amava. Por um tempo, ou para ser mais específica, por quase três anos, achei que havia encontrado a fonte da minha felicidade. Alguém para dividir minhas angústias e tristezas, alguém para somar, e não para dividir. Me enganei. Há três meses atrás, minha fonte de felicidade partiu, sem aviso prévio. Me deixou sem chão, sem ar, sem motivos para querer levantar da cama. Mas eu continuei, afinal, que garota seria idiota o suficiente pra desistir de tudo por um garoto? O problema, é que não era só isso. Quem me dera que minha única aflição fosse um amor não correspondido, pois isso, poderia resolver com outro amor.. Não é isso que dizem? O problema, era aquela maldita angústia, aquela maldita solidão, que me acompanhava desde sempre. Sinto que ela já veio comigo, que faz parte de mim e que em alguns minutos irá embora junto comigo. Sempre me senti muito sozinha, na maior parte do tempo, queria sumir, fugir. Sentar no chão do banheiro e chorar até acabarem as lágrimas, e por muitas vezes, o fiz. Nunca resolveu. Sempre fui tola em pensar que talvez a dor iria embora junto com as lágrimas, ou que uma boa noite de sono resolveria meus problemas. Nunca resolveram. E eu nunca demonstrei, por mais quebrada que estivesse por dentro, que precisava de ajuda. Sempre mantive a cabeça erguida, o sorriso no rosto, e fazia todos a minha volta sorrirem também. Não queria que se preocupassem, uma hora o tempo curaria. Não curou. E o que eu poderia fazer? O que havia me restado? Algumas cicatrizes na alma e um punhado de lembranças que não paravam de me atormentar. Não, isso não me manteria viva. E mesmo assim segui, como se nada estivesse acontecendo. Até hoje. (…) Mas não sei culpe, pai, mãe, médico legista, ou seja lá quem estiver lendo esse monte de baboseiras: a culpa não é sua. Talvez eu não devesse ter me fechado tanto. Talvez, o problema fosse comigo, e era. Sempre pensei que desistir era coisa de gente fraca, e acabo de confirmar isso. Fraca, talvez essa seja a melhor palavra para me definir. As vezes sinto que sou demais para esse mundo, as vezes sinto que esse mundo é demais para mim. Nada mais faz sentido aqui dentro, eu não passo de uma alma perdida, e creio já ter tido isso. Meu corpo está cansado, meu coração não aguenta mais tanto sofrimento. O que foi que eu fiz para merecer tudo isso? Eu nunca fui uma má garota. Sempre respeitei meus pais, sempre cheguei na hora certa. Eu só queria entender o porque de tudo isso. O porque de tanta dor, de tanta solidão. Eu só queria que alguém percebesse o que carrego por trás desse sorriso torto, e me desse um abraço dizendo que tudo vai ficar bem. Eu queria que tudo ficasse bem, eu queria que ele voltasse pra mim, eu queria que essa solidão me abandonasse de vez por todas. Eu queria que me dessem o devido valor, eu queria que tivessem o mínimo de consideração que mereço. Eu queria encontrar alguém que soubesse enxergar minhas qualidades, e que não me abandonasse quando eu mais precisasse. Mas é tarde demais. Já tomei minha decisão. Eu não pertenço a esse lugar, e talvez, nem faça diferença. Já estou morta há muito tempo, só preciso me desligar e quem sabe assim, descansar em paz. Mas antes de se desesperar diante do meu corpo gelado e sem vida, me prometa que a partir de hoje dar valor à quem está ao teu lado. Prometa que valorizará cada sorriso, cada abraço, e que não poupará esforços para fazer quem está a tua volta sorrir. Prometa também, colocar em mim a melhor roupa, e cantar músicas bonitas enquanto se despedem de mim. Prometa que não deixará mais nada para depois, porque esse depois, pode não chegar, pai, mãe, médico legista, ou seja lá quem está lendo esta carta. Até algum dia, quem sabe. (rocknrollgirl)
“Porque se você parar pra pensar, na verdade não há..”
“A recaída de amor acontece como num daqueles pesadelos que se está caindo. De repente você acorda sentado na cama: Meu Deus, eu preciso saber! Mas se eu já estava tão bem há semanas. Volte a dormir, volte a dormir. Você já tinha decidido lembra? Nada a ver com você, chato, bobo, não deu certo. Mas eu preciso saberNão, não precisa. Pra quê? Vai te machucar. Não! Eu preciso saber. Então levanto da cama. Facebook, a desgraça em formato de parquinho virtual. Nome dele, aparece a foto azulada e ele de perfil. É tão bonito. Mas não há mais nada que eu possa ver. Nos deletamos mutuamente pra evitar justamente esse tipo de inspecão noturna.Mas isso não vai ficar assim. Ligo pra nossa amiga em comum. Ela não atende, afinal, são duas da manhã. Mando mensagem “me manda sua senha do Facebook agora ou vou ficar te ligando até amanhã cedo”. Ela manda a senha e um palavrão. Acesso. Vamos ver. Eu preciso saber. Eu preciso. Então vejo que ele não posta nada há cinco semanas. Fotos, fotos. A única foto nova é o flyer de uma festa que eu fui e ele não estava. Nada. Jogo o nome dele no Google. Aparece uma foto dele alcoolizado dando entrevista em uma festa de mídia. Como é lindo. Tento o Twitter mas ele só escreve piada de político. Tento o Facebook, Twitter e blogs de amigos. Está ficando tarde. Se eu tivesse essa mesma concentração e minuciosidade e empenho e energia para o trabalho estaria rica. Estou retesadamente motivada e atenta. Mas não consegui nenhuma informação e eu ainda preciso saber.
São seis da manhã. Estou cansada. Coloco a música de quando você forçou a porta do quarto e entrou. Black Swan. Não sou boa de inglês como você, mas sei que é a história de algo que já começou fodido porque cresceu demais antes da hora, você que pegue um trem e suma daqui. Que bela música pra começar. Ok, agora estou chorando. Lembrei que eu me sentia tão viva com você me olhando bem sério e bem no fundo dos olhos e machucando meu braço. Sim, é definitivamente uma recaída e eu acabo de decidir que te amo mais que tudo no universo e que amanhã, ou hoje, porque já são sete e meia da manhã, vou resolver isso. Agora preciso dormir só um pouquinhoVolto pra cama. Coração disparado. Não tem posição na cama. O que eu faço? Não tô a fim de ler, não tô a fim de ver TV. Aquelas outras coisas que se faz pra acalmar tô com preguiça agora, minha imaginação está indo toda para traçar um plano para que eu descubra. Descubra o quê? Não sei, mas sei que algo está acontecendo, ou eu não estaria assim. Porque eu sinto quando ele está com alguém, sabe? Eu sinto. Sim! A cartomante!
Ligo pra Zuleide. Você atende hoje? Mas é domingo, Tati! Atende? Só se for por telefone. Tá bom, então joga aí: ele está com alguém? Mas Tati, você quer mesmo saber isso? Quero, mulher. Eu preciso saber. Joga aí: ele está com alguma puta? Tati, eu não posso perguntar isso pras cartas. Pergunta aí: ele tá com alguma piranhuda desgraçada vagabunda vaca dos infernos? Zuleide pede desculpas e desliga. Preciso do Lexapro mas ele acabou há semanas, igual meu amor. E agora, de repente, preciso tanto dos dois novamenteVocê acha que ele está com alguém? Não sei, Tati, eu ainda tô dormindo, posso te ligar mais tarde? Você acha que ele está com alguém? E se estiver, Tati, quer ir ao cinema mais tarde? Você acha que ele está com alguém? Putz, sei lá, homem sempre tá comendo alguém né? Você acha que ele está com alguém? Tati, do jeito que ele gostava de você? Claro que não!Chega, chega. Preciso me acalmar. Pra que isso? Se ele estiver com alguém agora, e daí? Terminamos não terminamos? Ele e eu não temos nada a ver, certo? Decidimos que era melhor assim, certo? Eu não tava bem com ele e nem ele comigo, certo? Porque era bom e tal. Aliás, meu Deus, como era bom. Mas não era bom pra ficar junto, certo? Então pronto. Chega. Adulta, adulta. Qual o problema se ele estiver agora, justamente agora, lambendo a virilhazinha de alguma desgraçada? Qual o problema? Ok, eu posso morrer. Eu definitivamente posso morrer. Chega, vou acabar com essa palhaçada agora mesmo.Tomo banho, me visto, pego a bolsa, entro no carro. Considerando que ele não mora em São Paulo, não sei exatamente o que eu pretendo com isso. Mas me faz bem enganar o cérebro e fazer de conta que estou indo atrás da verdade. Na verdade vou só na casa de outro, preciso fazer qualquer coisa que não seja sofrer, mas não consigo. O outro não conhece Black Swan, não ri da história da Zuleide, não me aperta o braço.
Volto pra casa, destruída. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir e bolhas de corações vermelhas atingiriam o Japão. Quase não consigo respirar. Chega, chega. Ligo pra ele. Ele não atende. Ligo de novo. Ele atende falando baixinho. Você está com alguém? Estou. Desligamos. Pronto, agora eu já sei. Depois de um final de semana inteiro de palpitacões, descargas de adrenalina, músicas, textos, amigos, danças, gritos, sensações, assuntos, choros, dores, vida. Agora eu já sei. O que eu nunca vou saber é porque faço tudo isso comigo só porque tenho tanto pavor do tédio. Era só isso o que eu precisava saber.
“Eu não desisti. Não completamente. Eu ainda continuo aqui, mas não com a mesma esperança e tolerância que tinha antes. Talvez eu tenha deixado de ser idiota ou quem sabe, talvez agora, eu tenha amor próprio. Dei-me valor e vi que, apesar das amizades, ninguém ouvirá minhas dores por completo, pois eu sei o quão tedioso é ficar ouvindo e aguentando problemas alheio. Ora, de problemas já tenho vários, mais os seus? Aí é apelar. E eu não te deixei, porque te prometi que ficaria, e fiquei. Fiquei, e aguentei todos os pesos e complicações que a mim eram impostos. Chorei, sorri, fiquei louco e empolgado, senti. Morri e ressuscitei, e então vi que minha promessa tinha sido em vão. Mas eu não sou como a maioria. Quando prometo, cumpro. Eu estive aqui, e jamais deixei de te proporcionar tudo que desejou. Ouvi teus problemas e sempre enxuguei suas lágrimas, independente da quantidade. Então, depois de tantas juras, tu fostes embora. Que amor é esse? Ora, beija-flor que vive de flor em flor? Aqui não. E eu me consenti e vi que nunca valeu nenhum esforço que eu fiz, mas eu não desisti. Não completamente…
“Você acha que vale a pena lutar, proteger e fazer dos intestinos o coração. Mas não vale, e nunca valerá a pena. Você luta, luta e no final é sempre a mesma merda: quem se fode é você. Não adianta insistir no erro. Não adianta cutucar ferida ou dar soco em faca, quando um filho da puta não vale o chão que pisa, não há ninguém que o faça valer algo. Você provará de novos beijos, novos amores, novos abraços, novos sorrisos, novos perfumes, novos conselhos, tudo novo. Você provará do melhor, e o pior sempre lhe fará falta, pois a saudade bate quando você o relembra. E dói, pois além dele ter ido embora, ele não foi a pessoa certa pra você. E você provará de novos calores, abraços e afagos. Provará de novas comidas e de simplicidades mais encantadoras. Provará coisas novas - ou não -, até você o esquecer, e quando o esquecer, verá que o filho da puta realmente nunca valeu a pena.
“Minha vida é monótona. […] E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora como música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. E então será maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…